quinta-feira, 10 de maio de 2012

O Despertar do Prazer da Descoberta



            Na discussão proposta por Swanwick em atrelar música e cultura é possível perceber que as linhas de contorno de ambos os temas se sobrepõem, com maior ou menor intensidade, na medida em que os aspectos de cada um são expostos. Apreende-se da discussão, o aspecto de constante mutação em que se depara a cultura e a sua conseqüente influência nos modos de produção musical. Os valores étnicos constantes na produção musical tornam-se culturais quando são incorporados ao cotidiano de um determinado grupo social e são "um modo único e diferente pelo qual as pessoas podem tanto se dar conta como transcender sua existência social" (Finnegan 1989). Das diferenças produzem-se novas verdades sociais e, como conseqüência, novos valores culturais passam a ditar os parâmetros a serem seguidos.
            Assim, a linguagem musical passa a ser utilizada como identidade de um grupo sonoro, que por sua vez, busca incessantemente pela quebra dessa identidade ao tomar para si e incorporar em seu nicho social, valores culturais estranhos aos seus, dessa forma produzindo mutações de conceitos e transformação de hábitos. É o diálogo entre as vozes musicais diversas, produzindo, transmitindo e transformando culturas.
            Habituados que estamos ao nosso próprio centro cultural, por vezes nos fechamos às outras manifestações culturais. Em seu livro, Ensinando Música Musicalmente, Swanwick expõe a cultura como um espaço intermediário onde as trocas, dentre elas musicais, são caminhos de mão dupla e navegam livres de barreiras territoriais e esse deve ser o olhar do professor musical. Ensinar musicalmente é não se curvar às barreiras estilísticas, sociais, territoriais, mas ultrapassá-las com um olhar crítico como o de um colhedor de trigo que o separa do joio. É despertar no aprendiz o prazer da descoberta.

Referências:
SWANWICK, K; Ensinando Musica Musicalmente. São Paulo: Moderna, 2003
http://joevancaitano.blogspot.com.br/2008/11/ensinando-msica-musicalmente-texto-de.html
           


domingo, 15 de abril de 2012

Nossa Imagem


            No programa “Legião Estrangeira” exibido neste domingo pela TV Cultura, um dos temas debatido foi a recente visita da Presidente Dilma aos Estados Unidos. A polêmica girou em torno da real importância que os EUA dão ao Brasil no que diz respeito ao peso político e territorial. O que me chamou mais a atenção é o fato de que não é interessante para os norte-americanos ter um outro país no continente que possa lhe ameaçar a hegemonia continental. Mesmo que ainda estejamos numa democracia precoce e pouco capaz de tal feito, é de se estranhar, portanto que os EUA nos dê tamanha importância. Parece-me mais um desdém do que medo de nossa política externa que não se define e tão pouco é capaz de determinar nossos rumos. 

sábado, 7 de abril de 2012

Música e Corpo


            Desde o inicio da civilização humana, a expressão corporal tem sido fonte de comunicação. O homem utiliza-se desse meio de expressão anteriormente às formas sonoras já bem antes de seu nascimento e reage a elas quando ainda na condição de feto absorvendo através da placenta que o hospeda, os sons que lhe chegam. 
            Dessa constatação, não se concebe o som sem a reação (expressão) corporal, pois ambas são indissociáveis e, traduzindo expressão corporal por dança, tem-se que música e dança, compartilham do mesmo objeto de difusão que é corpo humano e suas capacidades. Nele há a possibilidade de o som se transformar em movimento e vice-versa.
            As modernas Pedagogias Educacionais como a de Orrf ou Dalcroze apregoam, como cita a Profª Melina Sanchez em seu texto Corpo e dança na educação musical: recurso pedagógico somente?!”, que a música deve estar atrelada à expressão corporal por serem ambas as linguagens, manifestações naturais do ser humano. Nessa linha de raciocínio, constata-se que a Dança traduz em movimentos os aspectos de rítmica, pulsação, intensidade, andamento que também fazem parte do universo Musical e não se apresenta somente como recurso pedagógico, mas sim como ferramenta que além de preparar o corpo para o exercício musical, é também matéria prima para o desenvolvimento da consciência espacial, do equilíbrio, do movimento.
            Apesar de ser considerada como Arte, a Música deixou de ser parte integrante dos currículos escolares por um bom tempo e, agora com sua redescoberta como matéria disciplinar de peso igual às disciplinas comuns, ela traz consigo a expressão corporal como por exemplo as danças de roda que durante muito fizeram parte dos folguedos e brincadeiras infantis e que foram relegadas quase que ao esquecimento não fossem os pontos de culturas e seus redutos. Resgatar as raízes culturais na escola através das Artes é preservar a memória, definir identidade e, acima de tudo educar.
            Com a Lei Nº 11.769, busca-se reconduzir o ensino da Música e da Dança ao patamar antes ocupado por elas na civilização Grega onde eram acessíveis a todos e estavam presente nos ritos religiosos, nas festas, no treinamento militar, na educação da crianças. Juntamente com a Matemática e a Filosofia, a Música era a base da educação do cidadão grego (Rengel & Langendonck -2008). Corpo e Dança são partes integrantes do fazer musical e na maioria das vezes são relevados a segundo plano em razão da falta de qualificação adequada de professores. O modelo de qualificação dos educadores necessita de uma reformulação para que possa atender às demandas desse novo Ensino Musical que se apresenta.


REFERÊNCIAS:
                        http://educacao.uol.com.br/ultnot/2008/08/19/ult105u6853.jhtm
                        www.amusicanaescola.com.br/pdf/Melina_Sanchez.pdf


Ossimar Heleno Batista

quarta-feira, 28 de março de 2012

As Brincadeiras de Roda


É natural que nos sintamos excluídos quando uma roda qualquer é formada e não inseridos nela. O sentimento de rejeição de determinado nicho comunitário provoca, geralmente, uma auto-reflexão e um questionamento interno que nem sem sempre traduz a realidade. Quando inserido, o prazer da aceitação alheia se traduz em uma espécie de acordo tácito onde o equilíbrio da roda se sobrepõe aos anseios individuais pois, se assim não for, o elo podre da corrente pode se romper.
            Aliás, esse é o fundamento primordial da formação circular quando se desenvolve trabalhos em grupo. A roda possibilita uma interação que dificilmente pode ser alcançada em outras formações geométricas. Nelas, os participantes podem ser expostos a uma confrontação e, até mesmo, servirem de espelhos para variados procedimentos de seus pares.
            Nesse procedimento de se alinhar circularmente, o ser humano tem buscado a introspecção em busca de suas raízes, sensações e verdades. As danças circulares desenvolvidas pelo coreógrafo alemão Bernhard Wosien resgatam os valores humanos folclóricos implícitos nessa referida arte da expressão corporal. O resgate cultural que nelas está subentendido proporciona uma melhor identificação cultural e, por extensão, promove o reconhecimento do indivíduo como sendo parte integrante desse círculo social.
            As relações entre as culturas de diferentes povos podem, de maneira simples, serem desenvolvidas e inter cambiadas em uma roda de prosas, conversas, histórias diversas onde o preponderante é a diversidade, o diferente. Organizar e participar de uma roda, seja ela de que natureza for, pressupõe a disponibilidade para a diferença, para o novo.
            É, por essas razões, que as danças e brincadeiras de roda, que trazem consigo as tradições folclóricas musicais, devem permanecer constantes na formação básica do indivíduo. Toda criança gosta de música, poesia, brinquedo (Lydia Hortélio (in BRITO, 2003)).É através dessas atividades que os espaços individuais são delimitados e, o respeito ao espaço alheio é desenvolvido. O fato é que, na contramão dessa constatação, temos desvalorizado ao extremo o convívio circular em favor do enaltecimento do eu, do individualismo, do egoísmo puro. Estamos deliberadamente abandonando a convivência comunitária simbolizada pela roda, em favor da unidade simbolizada pelo ponto, aquele mesmo que se perde na imensidão que são as relações humanas.

Ossimar Heleno Batista