sábado, 18 de agosto de 2012

Sobre a Música Obrigatória nas Escolas Públicas


           
            A professora Silvia Sobreira traz, através do artigo “Reflexões sobre a obrigatoriedade da música nas escolas públicas”, uma série de indagações pertinentes à obrigatoriedade da Música nas escolas públicas. A lei nº 11.769/08 que trata de sua implantação não contempla os verdadeiros anseios dos educadores musicais no que diz respeito à sua operacionalidade. O fato da não exigência de formação específica para o ensino de música é, sem dúvida, uma ducha de água fria que faz cair por terra as maiores esperanças de haver uma disciplina de Educação Musical com peso disciplinar equivalente às matérias comuns constantes dos currículos regulares das escolas de ensino fundamental pois, “enquanto o ensino não for pensado de baixo para cima, ou seja, a partir de sua bases, toda a legislação pedagógica,seja ela a mais inovadora possível, será superficial e insatisfatória [...]. Não basta a lei.” (Lima 2003, p.85 – apud. Silvia Sobreira)
            Assim é que, para a efetiva implantação das alterações sugeridas pela lei acima citada, é preciso que haja a valorização do Educador Musical enquanto peça fundamental na disseminação desse conhecimento específico. Não se pode admitir que a Música seja tratada apenas como ornamento festivo e que seu valor pedagógico intrínseco seja menosprezado a tal ponto que qualquer pessoa se candidate a ministrá-la e, pior ainda, com o aval das autoridades educacionais.
            Sobreira aponta ainda que, apesar do ensino musical estar presente na educação brasileira desde o Segundo Império, a única referência de ensino musical de caráter educativo no Brasil ainda é o Canto Orfeônico e que ele, apesar de suas qualidades como disseminador cultural e social, não é unanimidade como modelo didático. Há também a visão distorcida que atribui à música o papel de ferramenta auxiliar no aprendizado de outras disciplinas, como se ela não fosse suficientemente capaz de existir por si só, com conteúdos possíveis de aplicação no crescimento intelectual, psíquico e moral dos indivíduos que dela se acheguem. Sobreira também fala sobre a capacitação profissional e do não reconhecimento do Educador Musical o que, sem dúvida é um fator que desestimula a procura por essa formação acadêmica e justifica os baixos salários pagos a esses profissionais. Por fim, Sobreira aponta o caminho das parcerias entre as Instituições formadoras de educadores musicais e as escolas públicas como uma luz no fim do túnel já que, através da participação efetiva do educador musical, com seus respectivos atributos específicos, no cotidiano educacional de uma determinada escola pública, seus efeitos benéficos tornem-se modelos a serem seguidos e devidamente reconhecidos como diferenciais na formação de alunos e seres humanos capacitados socialmente. “Enquanto a linguagem musical não for pensada como uma das formas de conhecimento que integra a formação da personalidade humana, o ensino musical será visto como ensinamento acessório não incorporado à totalidade curricular, quando comparado a áreas bem mais estruturadas, o que inviabiliza uma atuação funcional eficiente.” (Lima, 2003,p.84 – apud. Silvia Sobreira). Infelizmente, essa é a realidade.

Referências:

SOBREIRA, Silvia. Reflexões sobre a obrigatoriedade da música nas escolas públicas. Revista da Associação Brasileira de Educação Musical, nº 20, 2008

sexta-feira, 13 de julho de 2012

.A Autonomia do Aprendiz nos Cursos a Distância

 
Ao ler o texto do profº Oreste Preti sobre a autonomia do aprendizado, podemos dimensionar a importância do autoconhecimento que o aprendiz deve ter a respeito de seus anseios em relação ao caminho que ele está trilhando. A aprendizagem no sistema EaD requer autodisciplina, compromisso coletivo e coeso com os outros participantes de grupo, cumplicidade, determinação. É preciso estar motivado, e motivação significa encontrar nas informações recebidas a satisfação das expectativas que foram geradas quando do ingresso no Curso em que se está. Esta forma de aprendizado nos obriga a ter o domínio de uma leitura dinâmica aliada à capacidade de extrair dos textos os conteúdos relevantes e, o mais importante; ficarmos conscientes deles. Também é importante notar que além do autoconhecimento a EaD nos incita a rever conceitos, estimula-nos a ouvir os outros, transforma o compartilhar de ideias em algo prazeroso.  A construção do nosso conhecimento passa, obrigatoriamente, pelo fato de reconhecer no outro uma fonte abundante de informação. É claro que esse processo deve ser de uma troca saudável e feliz. Um fato que também chama a atenção está no que diz respeito ao amadurecimento de quem ingressa nesta forma de auto-aprendizado, pois sua experiência pode ser aproveitada como base para a construção de novos conhecimentos ou, até mesmo, para o enriquecimento de conhecimentos anteriores. Podemos, creio eu, esperar muito da EaD. Apesar de todos os preconceitos e das dificuldades decorrentes de sua implantação é, sem dúvida uma forma de integração e de distribuição de conhecimento bastante acessível e democrática.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

O Despertar do Prazer da Descoberta



            Na discussão proposta por Swanwick em atrelar música e cultura é possível perceber que as linhas de contorno de ambos os temas se sobrepõem, com maior ou menor intensidade, na medida em que os aspectos de cada um são expostos. Apreende-se da discussão, o aspecto de constante mutação em que se depara a cultura e a sua conseqüente influência nos modos de produção musical. Os valores étnicos constantes na produção musical tornam-se culturais quando são incorporados ao cotidiano de um determinado grupo social e são "um modo único e diferente pelo qual as pessoas podem tanto se dar conta como transcender sua existência social" (Finnegan 1989). Das diferenças produzem-se novas verdades sociais e, como conseqüência, novos valores culturais passam a ditar os parâmetros a serem seguidos.
            Assim, a linguagem musical passa a ser utilizada como identidade de um grupo sonoro, que por sua vez, busca incessantemente pela quebra dessa identidade ao tomar para si e incorporar em seu nicho social, valores culturais estranhos aos seus, dessa forma produzindo mutações de conceitos e transformação de hábitos. É o diálogo entre as vozes musicais diversas, produzindo, transmitindo e transformando culturas.
            Habituados que estamos ao nosso próprio centro cultural, por vezes nos fechamos às outras manifestações culturais. Em seu livro, Ensinando Música Musicalmente, Swanwick expõe a cultura como um espaço intermediário onde as trocas, dentre elas musicais, são caminhos de mão dupla e navegam livres de barreiras territoriais e esse deve ser o olhar do professor musical. Ensinar musicalmente é não se curvar às barreiras estilísticas, sociais, territoriais, mas ultrapassá-las com um olhar crítico como o de um colhedor de trigo que o separa do joio. É despertar no aprendiz o prazer da descoberta.

Referências:
SWANWICK, K; Ensinando Musica Musicalmente. São Paulo: Moderna, 2003
http://joevancaitano.blogspot.com.br/2008/11/ensinando-msica-musicalmente-texto-de.html
           


domingo, 15 de abril de 2012

Nossa Imagem


            No programa “Legião Estrangeira” exibido neste domingo pela TV Cultura, um dos temas debatido foi a recente visita da Presidente Dilma aos Estados Unidos. A polêmica girou em torno da real importância que os EUA dão ao Brasil no que diz respeito ao peso político e territorial. O que me chamou mais a atenção é o fato de que não é interessante para os norte-americanos ter um outro país no continente que possa lhe ameaçar a hegemonia continental. Mesmo que ainda estejamos numa democracia precoce e pouco capaz de tal feito, é de se estranhar, portanto que os EUA nos dê tamanha importância. Parece-me mais um desdém do que medo de nossa política externa que não se define e tão pouco é capaz de determinar nossos rumos. 

sábado, 7 de abril de 2012

Música e Corpo


            Desde o inicio da civilização humana, a expressão corporal tem sido fonte de comunicação. O homem utiliza-se desse meio de expressão anteriormente às formas sonoras já bem antes de seu nascimento e reage a elas quando ainda na condição de feto absorvendo através da placenta que o hospeda, os sons que lhe chegam. 
            Dessa constatação, não se concebe o som sem a reação (expressão) corporal, pois ambas são indissociáveis e, traduzindo expressão corporal por dança, tem-se que música e dança, compartilham do mesmo objeto de difusão que é corpo humano e suas capacidades. Nele há a possibilidade de o som se transformar em movimento e vice-versa.
            As modernas Pedagogias Educacionais como a de Orrf ou Dalcroze apregoam, como cita a Profª Melina Sanchez em seu texto Corpo e dança na educação musical: recurso pedagógico somente?!”, que a música deve estar atrelada à expressão corporal por serem ambas as linguagens, manifestações naturais do ser humano. Nessa linha de raciocínio, constata-se que a Dança traduz em movimentos os aspectos de rítmica, pulsação, intensidade, andamento que também fazem parte do universo Musical e não se apresenta somente como recurso pedagógico, mas sim como ferramenta que além de preparar o corpo para o exercício musical, é também matéria prima para o desenvolvimento da consciência espacial, do equilíbrio, do movimento.
            Apesar de ser considerada como Arte, a Música deixou de ser parte integrante dos currículos escolares por um bom tempo e, agora com sua redescoberta como matéria disciplinar de peso igual às disciplinas comuns, ela traz consigo a expressão corporal como por exemplo as danças de roda que durante muito fizeram parte dos folguedos e brincadeiras infantis e que foram relegadas quase que ao esquecimento não fossem os pontos de culturas e seus redutos. Resgatar as raízes culturais na escola através das Artes é preservar a memória, definir identidade e, acima de tudo educar.
            Com a Lei Nº 11.769, busca-se reconduzir o ensino da Música e da Dança ao patamar antes ocupado por elas na civilização Grega onde eram acessíveis a todos e estavam presente nos ritos religiosos, nas festas, no treinamento militar, na educação da crianças. Juntamente com a Matemática e a Filosofia, a Música era a base da educação do cidadão grego (Rengel & Langendonck -2008). Corpo e Dança são partes integrantes do fazer musical e na maioria das vezes são relevados a segundo plano em razão da falta de qualificação adequada de professores. O modelo de qualificação dos educadores necessita de uma reformulação para que possa atender às demandas desse novo Ensino Musical que se apresenta.


REFERÊNCIAS:
                        http://educacao.uol.com.br/ultnot/2008/08/19/ult105u6853.jhtm
                        www.amusicanaescola.com.br/pdf/Melina_Sanchez.pdf


Ossimar Heleno Batista

quarta-feira, 28 de março de 2012

As Brincadeiras de Roda


É natural que nos sintamos excluídos quando uma roda qualquer é formada e não inseridos nela. O sentimento de rejeição de determinado nicho comunitário provoca, geralmente, uma auto-reflexão e um questionamento interno que nem sem sempre traduz a realidade. Quando inserido, o prazer da aceitação alheia se traduz em uma espécie de acordo tácito onde o equilíbrio da roda se sobrepõe aos anseios individuais pois, se assim não for, o elo podre da corrente pode se romper.
            Aliás, esse é o fundamento primordial da formação circular quando se desenvolve trabalhos em grupo. A roda possibilita uma interação que dificilmente pode ser alcançada em outras formações geométricas. Nelas, os participantes podem ser expostos a uma confrontação e, até mesmo, servirem de espelhos para variados procedimentos de seus pares.
            Nesse procedimento de se alinhar circularmente, o ser humano tem buscado a introspecção em busca de suas raízes, sensações e verdades. As danças circulares desenvolvidas pelo coreógrafo alemão Bernhard Wosien resgatam os valores humanos folclóricos implícitos nessa referida arte da expressão corporal. O resgate cultural que nelas está subentendido proporciona uma melhor identificação cultural e, por extensão, promove o reconhecimento do indivíduo como sendo parte integrante desse círculo social.
            As relações entre as culturas de diferentes povos podem, de maneira simples, serem desenvolvidas e inter cambiadas em uma roda de prosas, conversas, histórias diversas onde o preponderante é a diversidade, o diferente. Organizar e participar de uma roda, seja ela de que natureza for, pressupõe a disponibilidade para a diferença, para o novo.
            É, por essas razões, que as danças e brincadeiras de roda, que trazem consigo as tradições folclóricas musicais, devem permanecer constantes na formação básica do indivíduo. Toda criança gosta de música, poesia, brinquedo (Lydia Hortélio (in BRITO, 2003)).É através dessas atividades que os espaços individuais são delimitados e, o respeito ao espaço alheio é desenvolvido. O fato é que, na contramão dessa constatação, temos desvalorizado ao extremo o convívio circular em favor do enaltecimento do eu, do individualismo, do egoísmo puro. Estamos deliberadamente abandonando a convivência comunitária simbolizada pela roda, em favor da unidade simbolizada pelo ponto, aquele mesmo que se perde na imensidão que são as relações humanas.

Ossimar Heleno Batista