terça-feira, 25 de outubro de 2011

ATABAQUES NZINGA


            O despertar de uma rainha negra, descendente de escravos que, através do tambor e do jogo de búzios vai descobrindo sua identidade é o fio condutor do filme Atabaques Nzinga. Já na abertura das tomadas, o músico Paulo Moura executa um tema triste e lamentoso em seu clarinete por vielas da cidade de Salvador na Bahia.
            O plano se desloca para uma tribo africana que entoa um canto que, aparentemente, demarca uma reunião tribal. A cena mostra que a reunião trata de um assunto sério e, os homens reunidos, ouvem o ancião relatar sobre a caça aos escravos e danças representativas são efetuadas por crianças e adultos. Ouve-se o som de um berimbau. Trata-se, porém, de um sonho da protagonista já que o corte da cena focaliza-a dormindo enquanto o navio negreiro atravessa os mares, carregado de escravos.
            Nesse ponto a trilha sonora vem para o primeiro plano e o mestre Naná Vasconcelos aparece efetuando cantos guturais apoiados pelo som de um gongo, berimbaus, chocalhos e percussões variadas, enquanto que os planos de tomadas se alternam entre o mar e o músico numa representação de toda a angústia da travessia até que a terra seja vista.
            A África nos gerou...e oBrasil nos mal criou.” Com essa frase entra em cena aquele que, provavelmente, seja a avó da protagonista e que torna-se a responsável por conduzir, através do jogo de búzios, a protagonista em seu caminho pela busca de suas raízes e de respostas para as suas inquietações. As feridas abertas pelas agruras da escravidão ainda insistem em provocar a dor da lembrança e Ana, a protagonista, tenta se livrar desse fardo pesado. “...ainda assim não passará, meu pai oxalá, essa memória herdada do fundo do navio...” ela segue tateando, sob a orientação do búzios, na busca de seu verdadeiro destino. Ao fundo, Naná Vasconcelos continua  sua invocação gutural.
            “...Muitos de nós foram calados pelos senhores da terra...mas não conseguiram silenciar o tambor... e é o tambor que até nos traz o contato a força, com os nossos ancestrais...” torna a se manifestar a provável avó, numa clara alusão à importância que o referido instrumento desempenha na cultura musical africana. Eleva-se o som de tambores e Ana os declara amigos que sempre respondem ao seu chamado.
            Um terreiro se abre na cena seguinte onde atabaques pontuam uma dança ritmada. Uma janela se abre e Ana, ao som vocal que beira o canto gregoriano, continua seu questionamento de identidade num plano diante de um espelho que, será visto novamente ao final do filme. As cenas seguintes são de manifestações de cultos religiosos. Os pontos de Umbanda ecoam por todas essas cenas com a força da mensagem tribal de seus toques e os rituais se desenrolam para fortalecerem as identidades culturais e as tradições dos povos africanos. Os atabaques ditam os ritmos enquanto que as vozes desfiam as ladainhas.
            Ana descobre sua nobreza através dos orixás e segue-se uma paginação de todos os momentos cruciais dos povos que foram subjugados e oprimidos. O berimbau soa alto em seu toque característico circundado por outros sons enquanto Ana derrama as lágrimas de outros escravos. “Nossa avó África, que tanto deu para esse país, é agora nossa querida antepassada”.  Não há mais lugar para lamentos.
            “Eu vim até aqui por que os tambores me chamaram” diz Ana à sua mãe (avó) e, um canto de pergunta e resposta é apresentado no que aparenta ser uma igreja católica, demonstrando todo o sincretismo religioso e a miscigenação própria do povo brasileiro. Ana está em seus domínios enquanto o cantador desfia seu cordel, outra vertente musical que também sofreu influência dos cantos corais africanos.
            Desse momento em diante, as influências da mãe África passam a ser pontuadas em todas as manifestações populares abrangendo os grupos de tambores baianos, os grupos de afoxés, os de congada, de côco, de maracatu, jongo, bumba-meu-boi, capoeira e, em todos eles, representados pela rainha Ana Nzinga, até cair nos braços de São Sebastião do Rio de Janeiro onde, tem-se na figura de Alaíde Costa, o elo entre a Bahia e o samba carioca.
            Outros personagens desfilam pelos arcos da Lapa e o samba torna-se produto evidente da influência africana nessa terra onde o tambor se desdobra em surdos, tamborins, pandeiros, cuícas e vai se misturando às flautas, caixas de fósforo, violões, clarinetas, capoeiras e seus toques, enfim, numa comunhão de timbres e cadências diversas, mas que, ao mesmo tempo, harmoniza todas as ramificações sob batuta solene do tambor. O samba pede passagem e desfila obras primas por alguns momentos.
            É nesse cenário que a única cena destoante de todo o filme se desenrola. Uma tentativa de estupro sofrida por Ana para demonstrar a proteção de seus orixás produz uma sensação de lugar comum que a força de todo o enredo não comporta.
            Merece destaque especial a trilha sonora do filme que nos remete a todo instante às origens africanas da música brasileira. Sob os cuidados do percussionista Naná Vasconcelos, o tecido sonoro mostra-se de extrema fidelidade com o tema central da narrativa e abrange de maneira interessante todas os caminhos musicais brasileiros dos quais pouquíssimos conseguiram absterem-se do som das vozes e dos tambores trazidos pelos africanos que vieram para o Brasil e que ajudaram a edificar o país que temos hoje. Ainda não é o ideal de igualdade, mas já muito se conquistou.

Referências:
- Atabaques Nzinga, CAVALCANTI, B., Otávio
(http://www.youtube.com/watch?v=glIplhm-kPs) – Acessado em 18 de Outubro de 2011
           
Filme de: Octávio Bezerra
Direção de Fotografia: Hélio Silva
Argumento, Roteiro e Direção: Octávio Bezerra Cavalcanti
Direção Musical: Naná Vasconcelos
Edição de Imagem e Som: Sueli Nascimento
Produção: Rose La Creta
Elenco: Taís Araújo, Lea Garcia, Paulão, Paschoal Vilaboim
Apoio: Ancine, BNDES, Prefeitura municipal do Rio de Janeiro, Olhar Feminino, Petrobrás.

2 comentários:

  1. Bom dia! Assisti o filme, e achei muitíssimo interessante, e teve uma música que eu gostei muito, procurei pela letra no Google, mas não consigo achar? Poderia me ajudar?

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    1. Uma parte dela é "Negro é belo de se ver"...

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